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Artigos


Revista Nacional de Reabilitação
29/09/2004
Artigo de Roberto Rios
Publicado na edição nº 39 de Julho/Agosto de 2004.

Estes meses de junho e julho tem feito muito frio em São Paulo. A cidade ficou parecida com aquela São Paulo antiga, conhecida como cidade da garoa. Que saudade do tempo que eu descia a rua da minha casa - naquele tempo eu ainda andava - com aquela garoazinha que dançava para cair lentamente e deixava a grama, o casaco e os cabelos com uma névoa branquinha.
Fico olhando pela minha janela, na direção do mirante de Santana, e vejo a garoazinha que há anos não dava as caras por aqui, cair sobre a cidade que parece calma, só parece.

Ah, São Paulo! Te adoro, mas você não é mais aquela cidade em que se podia voltar a pé nas madrugadas e bailar junto com a garoa a felicidade de uma conquista, sentir a névoa fina relar nos lábios que ainda estavam quentes pelo beijo roubado.

E a névoa descia e dançava em silêncio na rua, que em silêncio era companheira da minha volta, e a única preocupação no caminho era se encontraria novamente a bela garota de cabelos longos e negros. E o silêncio só era quebrado por alguma cantarolada leve que fugia dos lábios e fazia par com à garoa.
Saudade, saudade de tudo... e a São Paulo que eu adoro, mudou. E mudou muito.
A garoa veio este ano, mas não veio com ela a calma, não veio com a garoa a segurança dos velhos tempos, não voltou com a garoa as madrugadas no ponto de ônibus para todos irem ao trabalho.
O sol deu uma olhadinha tímida por entre as nuvens e me animou a ir para a rua - como se diz no interior - esquentar o sol. Atravessei a rua e estacionei minha cadeira no posto de gasolina, e lá fiquei tomando sol e proseando com o gerente entre uma abastecida e outra.
Nós conversamos sobre tudo: política, eleição, finanças, preço das coisas etc.

Já ia para mais de meia hora de conversa, quando atravessou a rua, em minha direção, um casal com uma criança. Pararam na minha frente e me pediram esmola, não pude dar, estava sem carteira, afinal eu estava ali só tomando sol, e o casal foi embora.
Continuei no lugar tomando meu solzinho e mais papo com o gerente. Não deu mais meia hora e um senhor parou em minha frente e me pediu esmola.
O gerente me disse: "aí doutor, com essa cara de rico o povo vem pedir mesmo".

E é neste ponto que eu quero chegar. Há duas situações para analisar:

Uma seria a minha cara de rico, como disse o gerente, a outra, a situação desesperadora em que se encontra o pobre.
Na primeira, fico feliz, por manter uma postura de bem estar, mostrar alegria, positividade, me preocupar com a aparência, participar em todos os sentidos, mesmo sendo cadeirante. Aproveito, para convidar todos os portadores de deficiência para ficarem assim, com cara de rico. Não precisa ser rico, mesmo porque, eu também não sou, mas ficar com cara de rico, assim, de bem com a vida.
Para ser feliz, estar de bem com a vida, eu trabalho todos os dias, passeio, estudo, pago impostos, tenho dívidas, enfrento congestionamento, sou voluntário, ajudo pessoas, ou seja, participo, sou cidadão.
Ô meu Deus... e a segunda situação que temos que analisar. Os pobres não tem para onde correr, qualquer coisa vale, para salvar o pão do dia.
Eu lembrei do passado no início do texto, porque lá atrás no tempo, o normal era dar esmola para o cadeirante. Não que eu concorde com isso, mas era mais ou menos assim. Se não se dava para o "deficiente", pelo menos ninguém tinha coragem de pedir para ele.
É ... a coisa tá muito feia. O Brasil que eu vejo não é o mesmo que se noticia na televisão.
Em tempo, a bela garota de cabelos longos e negros, é minha esposa hoje, a quem devo minha felicidade e a garra para continuar sendo cidadão nesse Brasil de vários olhares.

*Roberto Rios é deficiente físico, jornalista, radialista e palestrante.

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