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Artigos

Revista Nacional de Reabilitação
19/01/2005
Artigo de Roberto Rios
Publicado na edição número 41 de novembro/dezembro de 2004.
Roberto Rios*

Final de ano, todo o mundo cristão comemora o Natal e, uma semana depois, a passagem do ano. E todos fazem seus pedidos: entra na lista, desde sarar uma unha encravada até ganhar um avião a jato. Alguns pedidos que eu já ouvi: parar de beber, conseguir casar, voltar pra Bahia, Corinthians campeão, Palmeiras campeão, Portuguesa campeã (êpa... desculpe, esse pedido/sonho é meu ), ganhar na loteria, que o mundo acabe em barranco, que o mar vire cerveja, que a minha sogra saia da minha casa.
Mas uma coisa é verdade, se fizermos uma lista de mais votados, ganha disparado o pedido de PAZ. E esse pedido é tão urgente, tão necessário e tão desesperador que se pede paz para todos os lugares e para todos os santos.

Nós pedimos paz a Deus, nós pedimos paz para as nações, para seus governantes e para os homens. E o mundo grita silenciosamente: "parem com as guerras"!
Nós pedimos paz nos campos de futebol, nós pedimos paz no trânsito, no trabalho e no lar.

Mas, existem dois equívocos nesses pedidos: primeiro, dificilmente nós ouvimos alguém falar que vai buscar a paz interior, e segundo, como eu acabei de dizer, a paz se busca, se conquista, não se pede.

A paz se conquista a duras penas, com muito sacrifício, e só se realiza com a nossa reforma interior. A começar pela aceitação do próximo, como ele é.
A hora em que conseguirmos ver a guerra do mundo, travando uma luta interior pela paz, aí será o começo dessa paz tão almejada. Tem que ser todos... todos os homens.
As grandes guerras, as grandes desarmonias e as grandes delinqüências urbanas, nada mais são que a somatória das desorganizações interiores: o egoísmo, a intolerância, a inveja, a ambição, o medo, o orgulho, a insensatez, o fanatismo, principalmente o religioso.
Essas montanhas de maldades que estão dentro de nós, somadas principalmente com o poder, produzem as grandes calamidades.
Qualquer atributo ou falha no próximo se torna inaceitável aos nossos olhos, qualquer gosto diferenciado é mal visto, nas menores empreitadas já se evidencia uma competição desleal.
Um companheiro progride - desponta a inveja.
Ganhamos um pouco mais - aparece o orgulho.
Enxergamos uma possibilidade - já com ambição.
Um erro do próximo - não tem perdão.
É muito difícil para o homem aceitar as diferenças. Não conseguimos até agora, entender que a beleza da criação está justamente na diversidade... essas maravilhosas diferenças que tem a função divina de nos fazer crescer.
Muitos não se aceitam pela diferença de cor. A diferença religiosa causa guerras. A pobreza dá nojo, o anão é motivo de riso, o gordo incomoda e o velho está dispensado.
E quando se trata das diferenças aparentes, a maldade e a intolerância são ainda maiores. Quantas crianças já foram abandonadas por seus pais às portas de entidades ou até mesmo em latas de lixo, pelo simples fato de terem nascidas diferentes, especiais.

Eu conheço uma senhora, no interior de São Paulo, que teve cinco filhos, sendo que a filha mais nova teve uma paralisia cerebral leve. Resultado: os quatro primeiros estudaram, a mais nova se tornou uma espécie de faxineira da família. A mãe vai para a igreja e se senta na primeira fila, a filha, diferente, senta na última fila. Na volta para casa, em todo o percurso, "mãe" vai na frente e a filha vai atrás.

Como pode esta senhora conseguir paz se ela dividiu a família por não aceitar a diferença da própria filha?
Fatos como esse existem aos milhões pelo mundo, que somados, organizam a grande máquina de guerra, tendo como combustível, essa energia ruim gerada pelos corações em conflito, cada um, individualmente, contribui para o movimento dessa máquina destruidora.
Vamos neste final de ano, pedir paz.
Vamos lutar pela paz.
Vamos iniciar a construção da paz.
Vamos começar aceitando mais o próximo, não importando o tamanho nem o tipo da diferença.
Vamos entender que, se todos fossemos iguais, o mundo seria uma chatice e não existiria parâmetros para o aprendizado.
Todos somos diferentes... e todos queremos PAZ *Roberto Rios é deficiente físico, jornalista, radialista e palestrante.

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